Câncer de faringe e o HPV: a mudança no perfil dos pacientes modernos

Se você entrasse em um consultório de cirurgia de cabeça e pescoço há trinta anos, o perfil do paciente com câncer de orofaringe era quase previsível: homens, geralmente acima dos 60 anos, com um longo histórico de tabagismo pesado e consumo regular de álcool. Hoje, o cenário mudou drasticamente. Atendemos profissionais ativos, na faixa dos 40 ou 50 anos, muitos praticantes de esportes e que nunca tocaram em um cigarro. Essa metamorfose epidemiológica tem um nome: Papilomavírus Humano, o HPV. A faringe, especificamente a orofaringe — que engloba as amígdalas e a base da língua —, tornou-se o novo epicentro de uma “epidemia silenciosa”. Diferente do câncer causado pelo tabaco, onde as substâncias químicas agridem a mucosa até gerar uma mutação genética, o HPV atua como um invasor furtivo.

Ele integra seu próprio material genético ao DNA das células saudáveis, desativando os mecanismos naturais de defesa celular. É como se o vírus sequestrasse o sistema de segurança da célula, forçando-a a se multiplicar de forma descontrolada. No exame físico, essa diferença biológica se manifesta de forma peculiar. Enquanto o câncer “tradicional” costuma apresentar feridas dolorosas ou placas esbranquiçadas na boca, o tumor relacionado ao HPV muitas vezes se esconde nas criptas das amígdalas. Não é raro que o primeiro sinal percebido pelo paciente seja um nódulo endurecido no pescoço — um linfonodo que reagiu à presença do tumor — sem que haja qualquer dor na garganta. Para o diagnóstico, utilizamos a videolaringoscopia, um exame rápido realizado no consultório com uma fibra óptica fina, que permite visualizar a anatomia profunda da via aérea. Se algo suspeito é encontrado, a biópsia é mandatória.
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Aqui entra um detalhe técnico crucial: a análise da proteína p16. A presença dessa proteína é um marcador indireto de que o tumor foi causado pelo HPV. Identificar isso não é apenas uma curiosidade laboratorial; é o que define o prognóstico. Curiosamente, apesar de serem tumores agressivos em termos de crescimento, os carcinomas epidermoides HPV-positivos costumam responder muito melhor ao tratamento do que aqueles ligados ao cigarro. Isso nos permite, em casos selecionados, discutir a “descalonagem” do tratamento. Em vez de cirurgias altamente invasivas que poderiam comprometer a fala e a deglutição, podemos optar por procedimentos minimamente invasivos, como a cirurgia robótica transoral (TORS). Através da boca, o cirurgião consegue remover o tumor com precisão milimétrica, preservando os tecidos saudáveis ao redor.